Época de Pentecostes

PENTECOSTES/2021

(Simone Barros Ceregatti)

“Eu primordial

Do qual tudo provém,

Ao qual tudo retorna,

Eu primordial, que vive em mim, A ti eu aspiro.”

(Rudolf Steiner)

 

Originalmente Pentecostes era uma celebração agrícola do povo judeu, a Shavuoth, também chamada de “Festa da Colheita” ou “Festa das Semanas”, pois durava sete semanas desde o dia seguinte à Páscoa, até o 50º dia. Era uma forma de agradecer ao Senhor pelas boas colheitas. Pela forte influência grega sobre os judeus, por volta do séc IV aC surgiu a denominação “Pentecostes”, que significa “cinquenta dias depois”. Também se comemora pelos judeus nessa data, a revelação da Lei (Torah) a Moisés no Monte Sinai – sete semanas após a saída do Egito.

Os cristãos celebram em Pentecostes a vinda do Espírito Santo sobre a Terra, descrita nos Atos dos Apóstolos-2,1. No Brasil, é festejada  com uma manifestação popular de rua, tipicamente folclórica chamada de “Festa do Divino”,  muito alegre.

A descrição nos Atos começa com a reunião dos 12 apóstolos com Maria, 50 dias após a Páscoa e descreve o seguinte:” E quando o dia de Pentecostes foi cumprido, todos os discípulos estavam reunidos concordemente uns com os outros.”…A palavra “concordemente” não aparece em todas as versões do Novo Testamento, portanto, passa despercebida da maioria. Entretanto, ela é a única observação prévia e ao mesmo tempo uma condição muito importante para que se produza a descida do Espírito Santo. Ou seja, eles estavam reunidos “em boas relações uns com os outros”, em “concordância”, ou “concórdia”.

Rudolf Steiner descreve os apóstolos após a ascensão do Senhor como que tendo ficado em estado sonambúlico, amedrontados e encolhidos, sem saber ao certo como proceder, até a data do Pentecostes. Não tinham ainda tomado total ciência da imensa grandeza contida nos acontecimentos ocorridos pouco antes, na paixão do Cristo, sua morte no Gólgota, ressurreição e ascensão.

Os Atos continuam a descrição do fenômeno citando que o momento foi precedido pelo “rugir de um vento”: “ “De repente veio do céu um som, como de um vento muito forte, e encheu toda a casa na qual estavam assentados…” – Podemos entender essa imagem se recordarmos que na antiga língua hebraica  “vento” e “espírito” são designados com a mesma palavra : “Rouach”. E depois acontece que o Espírito Santo, vindo do alto, coloca-se sobre os discípulos, individualmente, como línguas de fogo separadas. Chamas soltas e individualizadas. Isso despertou neles uma nova capacidade: de falar em uma língua compreensível para cada ser humano.

Podemos entender a manifestação desse dom não como uma linguagem externa, mas “a língua original do coração, que fala de alma a alma, e por isso é compreensível para cada ser que leve o nome de “humano”. Por intermédio do Espírito Santo, o Cristo mesmo se uniu com o ser interior dos apóstolos.”(S. Prokoffief).

Rudolf Steiner cita a Festa de Pentecostes como a Festa do Futuro, aquela que toda a comunidade de seres humanos deveriam poder celebrar em união, a partir de seu ser individual voltado para ao acolhimento do Ser do Cristo: “Somente porque os seres humanos são indivíduos de um mesmo espírito, podem também viver juntos. O ser humano livre vive na confiança de que o outro ser humano pertence com ele a um mesmo mundo espiritual e que vai se encontrar com ele de alguma maneira em suas intenções.”( R. Steiner, GA 4).

Este espírito comunitário deveria unir todos os homens livres, ao reconhecerem que partiram de um mesmo início comum, espiritual: “De Deus nascemos.” Mediante isso, podem surgir na Terra novas comunidades baseadas em amor fraternal, nas quais os seres humanos se dirijam uns aos outros e também possam ascender, individualmente e em conjunto em liberdade – ao princípio ordenador e criador de todas as coisas. Pentecostes é o festival que celebra a conexão de uma individualidade com outra. Este festival nutre e celebra como o eu interior se move para encontrar o eu do outro. É a atenção à comunidade uma vez por ano. É a festa do ano.

No entanto, para realmente conhecer a comunhão com os outros, devemos conhecer a comunidade que constitui nosso próprio senso de identidade. Todas as partes que constituem nosso próprio ser interior, nossa complexidade de partes boas e fracas, partes ruins e maravilhosas, partes criativas e travadas.

E quais seriam todas as “linguagens” que falam as minhas partes? Quais seriam os meus “idiomas” interiores?

 

Podemos olhar para todas as línguas que falamos em nosso próprio ser e que ainda não entendemos. As linguagens truncadas de nosso humor, de nossos medos, anseios, necessidades. As linguagens de nossos sentidos, de nosso organismo. As linguagens antigas de nossa biografia, de nossos traumas e lembranças, as linguagens de nosso envelhecimento. Cada parte de nós tem uma linguagem e apenas algumas falamos bem, ouvimos e entendemos de fato. E procurando entende-las, poderemos também nos abrir para ouvir e entender aos demais. Ao conhecermos as nossas línguas, entenderemos aquelas faladas por todas as almas humanas que nos rodeiam no mundo. A língua da comunidade de seres humanos da qual fazemos parte.

 

Na Escola Waldorf, Pentecostes é uma época na qual podemos trabalhar esse senso de comunidade com as crianças, a partir de suas habilidades individuais. Podemos distinguir o que cada um faz bem, e propor atividades em que isto seja colocado a serviço do todo, no trabalho em equipe. Cada um, oferecendo o que tem de melhor, lega à comunidade frutos para serem saboreados em conjunto. Assim, a linguagem do coração, lugar onde o Cristo habita no indivíduo, poderá ser falada e compreendida por qualquer participante do grupo todo.

 

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